<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-4300412046816509924</id><updated>2012-02-13T20:56:58.364-02:00</updated><category term='sexualidade'/><category term='sexo'/><category term='gênero'/><category term='politicamente correto'/><category term='lgbt+'/><category term='visibilidade'/><category term='literatura'/><category term='racismo'/><category term='piadas'/><category term='classismo'/><category term='estupro'/><title type='text'>feminerds</title><subtitle type='html'>Once Gyarados goes on a rampage, its ferociously violent blood doesn't calm until it has burned everything down. There are records of this Pokémon's rampages lasting a whole month.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://feminerds.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4300412046816509924/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://feminerds.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Gyarados feminista</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04772361687305634665</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>10</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4300412046816509924.post-5167065926158320754</id><published>2012-01-29T00:01:00.001-02:00</published><updated>2012-01-29T00:01:01.483-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='gênero'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='visibilidade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='lgbt+'/><title type='text'>O direito de mijar</title><content type='html'>Eu quando preciso mijar não me preocupo com grandes coisas, exceto o caminho que preciso fazer até um santo e salvador banheiro convenientemente posicionado para o meu alívio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tem gente que, quando precisa mijar, para e pensa nas chances de chegar em casa e fazer lá mesmo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A essa diferença nós damos o nome de privilégio: é incrível, mas é um gigantesco privilégio da minha parte poder só me preocupar se vai ter papel no banheiro. Tem gente que, se fizer uma escolha errada, pode no mínimo ser humilhada, provavelmente ser espancada e possivelmente &lt;i&gt;morrer&lt;/i&gt;. Há casos de todos os três, inclusive e infelizmente o último, basta procurar um pouquinho na internet.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É engraçado que façamos esse tipo de associação tão comumente: que quem tem determinada genitália precisa usar determinada roupa, &lt;i&gt;caso contrário&lt;/i&gt;&amp;nbsp;merece mesmo que a sociedade a julgue e a ameace. Ter certa configuração genital nos prende a papéis específicos daquela configuração, e fugir deles é ser repreendida violentamente e, pior, essa repreensão violenta é aceita, é até mesmo encorajada. Às vezes você não para e pensa &lt;i&gt;mas que absurdo&lt;/i&gt;? Por que minha genitália, que aliás bem pouca gente nesse mundo já viu, deve dizer aos outros o que posso ou não vestir e como devo me comportar? Por que nos prendemos a uma regra tão sem noção, essa que diz que quem tem pênis assim deve se vestir e portar, e que diz que quem tem vagina deve se vestir e portar de outra maneira, e só está permitido fugir da norma se houver cirurgia envolvida e olhe lá?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há dias só há piadas na internet sobre a história da* Laerte e do banheiro. Li em especial uma (uma é modo de falar: era a mesma mais de cem vezes) que falava sobre querer a parte boa, mas não querer a parte ruim de ser mulher. A parte boa de ser mulher é entrar no banheiro feminino? Fiquei curiosa, também, sobre a parte ruim. Desde que veio a público, a Laerte está tendo que lidar com toda sorte de transfobia nos níveis mais variados e sutis; desde gente que pergunta se ela "vai cortar o pinto fora" a gente que quer saber se agora ela é homem ou mulher. Não faço ideia de que parte boa ela está recebendo, só estou vendo coisa ruim sendo dita sobre ela - que é excêntrica, que quer chamar atenção, que está confusa, que não sabe o que faz. O que eu sei é que, realmente, ela entrar no banheiro feminino é a opção &lt;i&gt;menos ruim&lt;/i&gt;&amp;nbsp;que ela tem. Entrar no masculino sendo identificada como homem, mas de vestido e salto alto, é, nos olhos de quase todas as pessoas, um vale-agressão. Se entrando no feminino, onde teoricamente há mais segurança, ela já sofre agressão verbal, alguém pode imaginar que notícias terríveis teríamos se ela entrasse no masculino?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mais do que isso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gênero não é preto no branco. Aliás, o termo gênero, em português, raramente é usado na concepção que Laerte tem usado. Gênero, além de ser forma feminina e masculina de uma palavra, ou um agrupamento de coisas com alguma similaridade (gênero de filme, por exemplo), é também uma expressão humana ligada a um conceito de sexo ou comportamento sexual. É fácil de confundir, porque confundimos aquilo que não conhecemos bem, e o Brasil ainda não conhece bem o que é gênero - e, a julgar pela baixa quantidade de cursos de estudos de gênero pelo mundo, acho que são poucas as culturas familiarizadas com a distinção entre gênero e sexo. Mas uma coisa é consenso entre os que se aventuram no assunto: gênero não é preto no branco, não é certo e errado, não foi enviado por fax de deus pra nós pra gente se virar com os conceitos. A gente cria e constrói, individualmente e em sociedade. E nós só temos direito de expressar nosso gênero se ele condisser com o que os outros esperam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pense nas pessoas que te disseram que você não podia falar palavrão por ser mulher. Nas que te disseram que você era menos homem por gostar de tal banda. Nas que quiseram te proibir de alguma coisa pensando apenas no que você tinha no meio das pernas. Nas que te exigiram alguma decisão ou ato porque você tinha certo órgão sexual e não outro. Isso é imposição de gênero. Isso é sexismo. Isso é machismo. Isso afeta a todos nós, mas tendemos a reconhecer apenas aquilo que vivenciamos: a mesma mulher que reclama de ser tratada como objeto sexual por seus colegas de trabalho é aquela que julga o rapaz que se comporta de forma "efeminada". Porque ela não tem seu gênero invalidado da mesma forma que esse rapaz: ela é desrespeitada quanto ao seu gênero quando é inferiorizada por tê-lo, mas não nota que está inferiorizando o rapaz da mesma forma ao crer que ele é &lt;i&gt;menos&lt;/i&gt;&amp;nbsp;o gênero &lt;i&gt;que é dele&lt;/i&gt;&amp;nbsp;por se comportar fora do que &lt;i&gt;ela entende que o gênero dele deveria ser&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Agora pense em como isso é diferente de dizer a Laerte que, por causa da genitália dela, por causa do histórico médico ou do que o valha, ela não pode usar um vestido e entrar no banheiro feminino.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não é.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Só chamamos essa imposição de gênero de transfobia quanto acontece a uma pessoa transsexual - ou quando a entendemos assim. É fácil chamar de transfobia e sexismo quando acontece, por exemplo, a uma pessoa transsexual famosa; mas e quando não é tão simples? E quando acontece a alguém que não diz que é mulher ou que vai "arrancar o pinto fora", e quando acontece a alguém que não quer ter um gênero imposto pelos outros, mas quer construir por si mesma? Por que não podemos aceitar que alguém que tenha assumido códigos "femininos" de vestimenta e comportamento queira ir ao banheiro criado e entendido para pessoas que assumem os mesmos códigos que ela?&amp;nbsp;Por que negar a Laerte o direito de mijar com o gênero que preferir?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Claro, ela podia ter ido pra casa. Assim como você poderia ter parado de falar palavrões - ou de gostar daquela banda - ou de usar brinco na orelha - ou de fazer aquela tatuagem mais masculina. Todos podemos parar. Todos podemos entrar numa caixa rígida. Todos podemos ter um gênero normativo e proscritivo. Mas se tantos de nós se rebelam quanto a isso, acho que todos podemos entender exatamente por que chega a ser risivelmente infantil chamar o que a Laerte está fazendo de exagero.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O problema também é o seu gênero.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
*os pronomes estão na forma feminina porque é a que a própria Laerte tem usado para expor essa história.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: right;"&gt;
Post escrito para a &amp;nbsp;&lt;a href="http://blogueirasfeministas.com/2012/01/chamada-blogagem-coletiva-visibilidade-trans/"&gt; Blogagem Coletiva do Dia da Visibilidade Trans&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4300412046816509924-5167065926158320754?l=feminerds.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://feminerds.blogspot.com/feeds/5167065926158320754/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://feminerds.blogspot.com/2012/01/o-direito-de-mijar.html#comment-form' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4300412046816509924/posts/default/5167065926158320754'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4300412046816509924/posts/default/5167065926158320754'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://feminerds.blogspot.com/2012/01/o-direito-de-mijar.html' title='O direito de mijar'/><author><name>Julia</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-oJ0J3NJCrNU/TZTrBO6w_1I/AAAAAAAAAc0/GSwnfU89K5Y/s220/caradeporquinho.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4300412046816509924.post-4561852186582689645</id><published>2012-01-22T11:10:00.000-02:00</published><updated>2012-01-22T11:10:34.288-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='classismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='racismo'/><title type='text'>Aqui é Capão Redondo, não Pokémon</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal"&gt;
&lt;span lang="PT-BR"&gt;Eu gosto de brincar que moro no Capão
Redondo – pra quem não é de São Paulo: acho que é o lugar com mais fama de
perigoso da Zona Sul, personagem e ambiente em várias músicas dos Racionais
MCs. Eu não moro lá, mas moro na periferia, em um bairro próximo sem tanta
fama; mas, pra evitar falar por aí onde moro, falo que é no Capão, pras pessoas
entenderem que é longe do centro e é na periferia.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoNormal"&gt;
&lt;span lang="PT-BR"&gt;Não foi na Internet, porém, que eu ouvi
pela primeira vez algo nas linhas de “&lt;i&gt;Mas Jack, você é tão branquinho, sabe escrever
bem, tem bom gosto pra música, artes... duvido muito que more no Capão&lt;/i&gt;”. Não
ouço sempre, também, mas acho que só ter ouvido isso mais de uma vez já é uma
frequência assustadora. E, recentemente, recebi essa mensagem outra vez no Formspring.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoNormal"&gt;
&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoNormal"&gt;
&lt;span lang="PT-BR"&gt;Tento não julgar as intenções por trás da “pergunta”.
Apesar de ter sido naquele site, onde recebo quase todos os dias
mensagens tão ofensivas quanto, eu resolvi dar o benefício da dúvida a quem
quer que tenha perguntado isso, pois, infelizmente, é o que a gente está
condicionado a pensar: já ouvi a mesmíssima coisa, há cerca de dois anos, de
um grande amigo, que também é feminista e luta pelos direitos LGBT+, em forma
de &lt;i&gt;elogio&lt;/i&gt;. Mesmo na época, algo me soava errado, e eu senti que não
deveria ficar contente em ouvir isso, mas só recentemente é
que parei pra pensar no porquê de isso ser errado e ainda assim ouvido e dito
como elogio tantas vezes.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoNormal"&gt;
&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoNormal"&gt;
&lt;span lang="PT-BR"&gt;Acredito que essa visão das pessoas pobres,
vinda presumivelmente de gente com
privilégio financeiro, se dê por tendermos a pensar que as características que
apreciamos em uma pessoa são inerentes a gente que tem coisas em comum conosco;
no caso, dinheiro e oportunidade de estudo. Como muitos outros problemas, esse
também seria gerado pelo desinteresse e generalização do que é diferente.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoNormal"&gt;
&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoNormal"&gt;
&lt;span lang="PT-BR"&gt;A pessoa que me mandou aquela mensagem
considera que escrever bem e ter bom gosto pra música e artes são coisas boas,
e não esperaria encontrar essas características em alguém que mora em um lugar
tão diferente dela e teve uma vida tão diferente da dela. A imagem que ela tem
de pessoas pobres é o que a sociedade vê como inferior: são pessoas que
não se interessam por cultura, aquelas que ouvem funk sem fones de ouvido no
ônibus e não tiveram uma educação decente. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoNormal"&gt;
&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoNormal"&gt;
&lt;span lang="PT-BR"&gt;Eu mesmo, que tento ao máximo não ter esse
tipo de ideia, já me peguei me surpreendendo em ver gente que preenche o meu
conceito de "interessante" - gosta de ler, gosto musical parecido,
tem opiniões sobre assuntos variados etc - que estava na mesma escola, curso
ou trabalho que eu. E, porra, eu também estava lá, eu estava tendo esse
preconceito comigo mesmo! &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoNormal"&gt;
&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoNormal"&gt;
&lt;span lang="PT-BR"&gt;Acontece que a ideia de que ter interesse
por cultura e boa educação são coisas superiores é classista. Primeiro, porque
você não deveria ser julgado inferior por não gostar de ler ou coisas do tipo,
não importa sua classe social. É uma questão de gosto, e ler muitos livros pode
te deixar mais inteligente em um sentido, mas existem milhares de outras formas
de ser inteligente. Como disse Albert Einstein, “&lt;i&gt;Todo mundo é um gênio. Mas se
você julgar um peixe por sua capacidade de subir em árvores, ele passará a vida
inteira acreditando que é idiota&lt;/i&gt;”. E segundo, porque você só se interessa por
algo quando o conhece, tem acesso a ele de alguma forma, coisa que a maioria
das pessoas que moram na periferia não têm em relação à cultura. Nas escolas
públicas a maioria dos professores já deixou de acreditar nos alunos (ou
recebem instruções para tal) e nivelam por baixo, ignorando vários conteúdos
por saberem que eles não vão entender por não terem tido uma boa base nas
séries anteriores, e isso vai se repetindo até que o jovem se forma e vê que
não tem a mínima chance em vestibulares concorridos, e assim as universidades
públicas – que deveriam ser primariamente para quem não tem condições de pagar
por uma particular – ficam cheias de carros do ano no estacionamento.&amp;nbsp; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoNormal"&gt;
&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoNormal"&gt;
&lt;span lang="PT-BR"&gt;E o racismo, é claro, que é tão óbvio
quando a pessoa diz “branquinho” que eu nem deveria precisar comentar. E, pior,
talvez seja a parte menos pré-conceituosa da pergunta: é um fato que a maioria
da população da periferia é negra ou parda. Eu não sou por mero acaso: minha
mãe é negra (talvez parda, pelo censo, mas enfim, tem pele escura), meu pai é
branco, e os alelos e essas coisas de biologia que eu não aprendi porque
estudei em uma escola estadual ruim decidiram que eu seria branco. Mas não é
por acaso que a maioria do povo da periferia é negro. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoNormal"&gt;
&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoNormal"&gt;
&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;i&gt;"60% dos jovens de periferia sem
antecedentes criminais já sofreram violência policial&lt;br /&gt;
A cada 4 pessoas mortas pela polícia, 3 são negras&lt;br /&gt;
Nas universidades brasileiras apenas 2% dos alunos são negros&lt;br /&gt;
A cada 4 horas, um jovem negro morre violentamente em São Paulo"&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;
(Capítulo 4, Versículo 3 – Racionais MCs)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoNormal"&gt;
&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoNormal"&gt;
&lt;span lang="PT-BR"&gt;Não sei se as estatísticas estão todas
corretas, já que a música é de 1997, mas com certeza não é muito diferente
disso. Eu não vivo isso, mas amigos meus vivem, e não é um ou dois. Em
muitas entrevistas de emprego em que eu estive - para trabalhos como call
center, veja você - "coincidentemente" apenas os brancos conseguiram
o trabalho. Talvez não tenha sido por uma questão racista direta - prefiro acreditar
que as empresas não deixaram de contratar essas pessoas simplesmente pela cor
de sua pele -, mas ainda que eles só tenham escolhido os que foram melhores nos
testes ou que tinham currículos mais interessantes, é uma consequência do
racismo que negros tenham tido menos oportunidade de estudo e portanto não
atendido aos requisitos da empresa nesse sentido.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoNormal"&gt;
&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoNormal"&gt;
&lt;span lang="PT-BR"&gt;Eu sou a favor das cotas, mas consigo
concordar com alguns argumentos contra. O que eu não consigo tolerar é que
exista quem seja contra as cotas raciais por acreditar que racismo não existe
mais. Que digam que “a escravidão acabou, todos têm igual capacidade de passar
em um vestibular”. A escravidão acabou há 123 anos. Há pouco mais de um século
pessoas eram tratadas como algo menos que humano apenas pela cor da pele. Não
dá pra “get over it”, é muito recente e ainda hoje as pessoas negras têm piores
condições de vida que as brancas e sofrem as consequências de um período tão
extenso de ódio. Quando a Lei Áurea foi assinada, nós não passamos milagrosamente
a viver em um mundo em que ser negro não é visto como ruim; o passado constrói
o presente, e não houve uma borracha mágica pra apagar séculos de segregação
racial. Não é coincidência que a maioria dos moradores da periferia, das
classes sociais mais baixas, seja de negros ou pardos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoNormal"&gt;
&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoNormal"&gt;
&lt;span lang="PT-BR"&gt;Eu me sinto culpado por isso. Eu sou
minoria em vários sentidos, mas tenho um privilégio gigante por um mero acaso
da genética. Eu sofro muito menos preconceito social do que alguém negro, então
acho difícil separar esse do racial. Ninguém guarda o iPad quando eu entro no
metrô da linha verde, mas o faz quando entra alguém que teve a mesma educação
que eu, cresceu na minha rua, chama meu pai de tio. A pessoa não sabe de onde
eu sou, não sabe se eu estudei no Bandeirantes ou na Escola Estadual Prof.
Maria Juvenal Homem de Mello, mas confia mais em mim por causa da quantidade de
melanina na minha pele. Se você não fica puto e triste com isso, alguma coisa está muito errada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoNormal"&gt;
&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoNormal"&gt;
&lt;span lang="PT-BR"&gt;O lugar onde você cresceu e mora não tem
nada a ver com o que você gosta, com o quanto de gramática você sabe, com nada.
Eu tive mais oportunidade, só isso - e, nesse caso, a oportunidade foi ter
alguns livros, pais que se preocupavam com minha educação mesmo não tendo
dinheiro pra pagar uma escola particular (claro que não estou dizendo que a
maioria dos pais de crianças pobres não se preocupam com educação, o fato é que
a maioria não teve oportunidade de estudar então não &lt;i&gt;sabe&lt;/i&gt; como ajudar o filho nisso) e um computador. Eu não sou
especial porque moro no Capão e sou "branquinho, escrevo bem e tenho bom
gosto". &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoNormal"&gt;
&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoNormal"&gt;
&lt;span lang="PT-BR"&gt;Aliás, tinha uma menina na minha sala de
faculdade que també&lt;/span&gt;m poderia ter respondido à tal pergunta. Mora em Taipas ou
algo assim, é inteligente e gosta de coisas consideradas
"interessantes". Nós éramos os únicos alunos bolsistas da minha sala
e... ela também era branca. Entende? Como pode ser coincidência que, de todos
os bolsistas que eu conhecia no campus (uns seis ou sete), só um não era branco
(ele era pardo)? Havia dois negros na minha sala: ambos saíram de famílias
pobres; um só conseguiu entrar na faculdade perto dos 30 anos e o outro estava
pagando uma metade e financiando a outra. Não era exclusividade da minha
faculdade: tenho certeza que se você começar a pensar sobre o racismo na sua
faculdade/escola, no seu trabalho e em outros lugares que frequenta, vai perceber
como está por todo lugar.&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoNormal"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoNormal"&gt;
&lt;span lang="PT-BR"&gt;Essas coisas me fazem perceber o quão pouco
eu me atento à causa negra. Tanto que eu não tenho base teórica nenhuma pra
deixar esse post mais rico (ha ha ha olhem o adjetivo pra "com mais
conteúdo"), pesquisei bem pouco sobre o assunto (e aproveito pra me
desculpar por qualquer informação ou estimativa errônea que eu tenha posto aqui),
quando é quase uma obrigação que eu o faça. Acho que o privilégio me deixou
preguiçoso, o que é horrível admitir, e preciso mudar isso - então, quem sabe,
mesmo tendo sido uma pergunta horrivelmente preconceituosa, não tenha feito um
bem?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
(O título do post é da música &lt;i&gt;Vida Loka, parte II&lt;/i&gt;, e achei adequado dado o título e tema do blog. Esse post nasceu da resposta que eu dei pra famigerada pergunta no Formspring, então se você sentir que já leu algo parecido antes, não é dejavu ou plágio, eu que reescrevi mesmo.)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4300412046816509924-4561852186582689645?l=feminerds.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://feminerds.blogspot.com/feeds/4561852186582689645/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://feminerds.blogspot.com/2012/01/aqui-e-capao-redondo-nao-pokemon.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4300412046816509924/posts/default/4561852186582689645'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4300412046816509924/posts/default/4561852186582689645'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://feminerds.blogspot.com/2012/01/aqui-e-capao-redondo-nao-pokemon.html' title='Aqui é Capão Redondo, não Pokémon'/><author><name>Jack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10143492768026366396</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/-RAQ55MUdJ8Q/TxutGBkR7-I/AAAAAAAAABE/JCWefah6cfQ/s220/Brenda.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4300412046816509924.post-4480587544112488537</id><published>2012-01-13T01:14:00.008-02:00</published><updated>2012-01-13T01:22:53.802-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='racismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='politicamente correto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='lgbt+'/><title type='text'>"Nada contra, tenho amigos que são"</title><content type='html'>O "amigo minoritário" é, a esse ponto, uma espécie de figura mística nas  discussões a respeito de qualquer preconceito. Para fins de definição:  Ele/ela será, sempre, um membro do grupo em questão, que valida o que a  pessoa da discussão pensa sobre o assunto, concordando. "Meu amigo negro  também não aprova as cotas"; "Meu amigo gay não liga quando eu digo  "bicha"; "Acho que as mulheres devem se dar o respeito e se vestirem de  maneira menos reveladora, e minha esposa concorda"; etc. É uma figura  que é trazida à tona pela pessoa que está sendo acusada de ter uma  atitude problemática, na tentativa de fazer da opinião dela aceitável.  Também pode ser utilizado como uma maneira direta de desviar essas  acusações, com o popular "Não sou racista, tenho até um amigo negro!" e  derivados.
&lt;br&gt;
&lt;br&gt;
A maior parte das pessoas que já têm certa experiência  com qualquer tipo de ativismo saberá reconhecer o quão errada é essa  atitude, mas acho necessário analisar o que a motiva. A crença de que  possuir um amigo minoritário te impede de ter preconceitos parte da  idéia errônea de que opressões como racismo, machismo, homofobia e  outras mais só existem nas suas formas mais extremas, quase  caricaturadas - as in, se eu sou capaz de me dar bem com um negro, se  sou capaz de conversar e me afeiçoar a ele, se sou capaz de tratá-lo com  respeito, se consigo &lt;span style="font-style: italic;"&gt;vê-lo como um ser humano&lt;/span&gt;,  eu não posso ser racista. Isso ignora o óbvio: De que essas opressões  se manifestam em inúmeras formas, muitas vezes não intencionais, de  maneiras muito mais sutis e perigosas do que o extremo de evitar contato  e amizade.
&lt;br&gt;
&lt;br&gt;
E torna-se irônico, também, porque a própria  utilização do "amigo minoritário" numa discussão contribui para um  processo de desumanizar a figura em questão. Ele deixa de ser um amigo e  se torna uma carta na manga, um argumento extra. Às vezes o amigo  mencionado nem existe, ou, se existe, nunca de fato discutiu aquele  assunto com a pessoa em questão. Mesmo que exista, os sentimentos dele,  as experiências dele, e a opinião completa dele sobre o assunto não são,  de fato, relevantes - o que é relevante, para a pessoa que o traz à  tona, é mostrar que ele concorda, que ela tem razão, que até mesmo essas  minorias (por mais burrinhas e perdidas que sejam!) são capazes de  enxergar a luz da razão de vez em quando. Preste atenção: O amigo  minoritário não é um exemplo. Ele não é uma estatística, ele não é uma  contribuição para o argumento. Ele é a base principal, muitas vezes o  argumento todo. "Eu posso dizer "bicha" e "viado", &lt;span style="font-style: italic;"&gt;porque &lt;/span&gt;meu amigo gay diz"; "Tenho um amigo negro, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;logo &lt;/span&gt;não  sou racista". Se o amigo não existisse, não haveria argumento. Porque é  isso que ele é, no momento da discussão: Uma carta na manga, quase um  bônus.
&lt;br&gt;
&lt;br&gt;
Os possíveis fatores que podem levar o amigo a concordar  com a opinião problemática em questão - falta de paciência para começar  uma discussão; falta de experiência com o assunto; falta de  familiaridade com o próprio grupo minoritário; falta de vontade de  provocar uma possível briga por algo menor; enfim, barreiras &lt;span style="font-style: italic;"&gt;humanas&lt;/span&gt;  -não são importantes, para a pessoa que o invoca. Porque assume-se, de  novo num processo de desumanizar, que o membro minoritário é capaz de  falar pelo grupo todo. Desse modo, "meu amigo gay diz que eu posso!" se  torna uma justificativa para um possível comentário homofóbico, porque a  pessoa que a usa não concebe a idéia da comunidade gay como um grupo  extremamente diverso, com milhões de indivíduos dentre os quais uma boa  parte não concorda com o seu amigo. A idéia de um membro minoritário&lt;span style="font-style: italic;"&gt; &lt;/span&gt;sem ser o suposto amigo, ou seja, de um membro minoritário que &lt;span style="font-style: italic;"&gt;discorda de você&lt;/span&gt;, é inconcebível e desagradável, e, portanto, não é nem considerada.
&lt;br&gt;
&lt;br&gt;
Não  estou dizendo que o amigo minoritário nunca exista, ou que ele nunca  concorde com a opinião problemática em questão. É claro que não é o  caso. Mas usar o amigo minoritário como carta branca para toda sua merda  preconceituosa é um recurso que prova o quão pouco respeito você tem  por aquele grupo em particular - para cada "amigo" que concorde com o  que você diz, posso te apresentar uns dez membros do mesmo grupo que  apontariam o quão preconceituosa e errada é aquela atitude. A sua  generalização e redução de milhares de pessoas para o seu único e  solitário amigo é devida não a sua atitude estar correta (porque não  está); mas sim à sua falta de vontade e aversão à idéia de alterar os  seus pensamentos, comentários e linguagem preconceituosos, que te faz  buscar uma validação dessas idéias, uma prova de que elas não são tão  ruins como outras pessoas estão apontando. Daí o recurso do amigo, o  conveniente e prático amigo, que se transforma numa ferramenta que te  permite permanecer confortável e sem se questionar, reforçando  diretamente uma opressão da qual você clama desesperadamente não ser  parte. Ah, ele é tão útil e simples que podia vir à venda. Se não fosse  um ser humano - não que você aja como se fosse.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4300412046816509924-4480587544112488537?l=feminerds.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://feminerds.blogspot.com/feeds/4480587544112488537/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://feminerds.blogspot.com/2012/01/nada-contra-tenho-amigos-que-sao_13.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4300412046816509924/posts/default/4480587544112488537'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4300412046816509924/posts/default/4480587544112488537'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://feminerds.blogspot.com/2012/01/nada-contra-tenho-amigos-que-sao_13.html' title='&quot;Nada contra, tenho amigos que são&quot;'/><author><name>Fernanda</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10488560985086794984</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_6bFapzWOWJI/S6UP958iiBI/AAAAAAAAAVA/9cIM0KwLunM/S220/Peanuts2.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4300412046816509924.post-8637483466031096876</id><published>2011-12-21T00:26:00.005-02:00</published><updated>2011-12-21T01:53:24.529-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='literatura'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='gênero'/><title type='text'>Me perguntaram por que penso que literatura feminina é tratada como inferior.</title><content type='html'>&lt;span style="background-color: white; font-family: inherit;"&gt;&lt;span style="line-height: 18px;"&gt;Não penso. É fato.&lt;/span&gt;&lt;br style="line-height: 18px;" /&gt;&lt;br style="line-height: 18px;" /&gt;&lt;span style="line-height: 18px;"&gt;Procure em currículos de faculdades por autoras mulheres. São bem poucas. Procure clássicos respeitados escritos por mulheres. São bem poucos. Procure Prêmios Nobel entregues a mulheres. Quantos são, mesmo? Procure a origem do termo poetisa, e descubra que a Cecilia Meireles já foi largamente elogiada por ser tão boa escritora que sequer era poetisa, e sim poeta!&lt;/span&gt;&lt;br style="line-height: 18px;" /&gt;&lt;br style="line-height: 18px;" /&gt;&lt;span style="line-height: 18px;"&gt;Mas é mais do que isso. É que há mesmo uma divisão séria sobre literatura feminina. Livros escritos por mulheres são colocados todos no mesmo balaio, e um balaio abaixo da literatura "normal". Há zilhões de escritoras femininas, mas raras que sejam ensinadas em sala de aula, seja na escola, seja na faculdade. Há zilhões de livros famosos escritos por homens e considerados incríveis, mas, mesmo que uma mulher escreva similar, ele raramente ganha o mesmo status. Somos ensinados a apreciar o sentimentalismo romântico de todos os países, mas quando uma mulher escreve a mesma coisa, está sendo afetada. Quando uma mulher escreve com frieza, dureza ou violência, está negando seu gênero, está imitando homens. Ninguém liga se o Bukowski só fala de putaria explicitamente; mas você imagina uma mulher publicando só sobre putaria sem ser julgada de formas que o Bukowski não conseguiria nem imaginar? Isso é visto em crítica literária - a séria e a de revista, pra botar em contracapa de livro - de várias décadas pra cá, inclusive na atual.&lt;/span&gt;&lt;br style="line-height: 18px;" /&gt;&lt;br style="line-height: 18px;" /&gt;&lt;span style="line-height: 18px;"&gt;Já ouvi estudiosos falando que "a literatura feminina é tida como inferior porque mulheres não escrevem há tanto tempo quanto os homens". Antes apontei que o clássico mais reverenciado da história foi escrito há três mil anos. Agora vou apontar que nunca ouvi falar que todas nós mulheres escrevíamos juntas, umas com as outras, evoluindo exatamente conforme a outra. Só uma mentalidade que vê todas as mulheres como iguais seria capaz de entender que a "inferioridade" (posta como certa, perceba) feminina se dá por esse motivo!&lt;/span&gt;&lt;br style="line-height: 18px;" /&gt;&lt;br style="line-height: 18px;" /&gt;&lt;span style="line-height: 18px;"&gt;Fala-se em qualidades femininas ao escrever, mas é raríssimo ver alguém falando das qualidades masculinas de um livro. Fala-se em sensibilidade e delicadezas como se fossem inerentes ao gênero (ou ao sexo, não sei o que é pior), sem perceber que isso é desumanizar mulheres e inferiorizá-las - não sou uma coisa que funciona exatamente igual a todas as outras coisas, e minhas ações não se devem ao fato de eu ser mulher. Insinuar o contrário é me tirar a identidade e a agência, e é isso. Eu estava lendo uns livros aí e pensando... esse livro seria perfeitamente coerente se trocássemos o cara por uma mulher, mas sem dúvida faria bem menos sucesso e não viraria um clássico. Eu, pelo menos, acho difícil imaginar qualquer poesia do Álvares de Azevedo sendo levada a sério caso o nome na capa fosse feminino.&lt;/span&gt;&lt;br style="line-height: 18px;" /&gt;&lt;br style="line-height: 18px;" /&gt;&lt;span style="line-height: 18px;"&gt;Aliás, você sabe citar quantos clássicos em que a personagem principal seja uma mulher? Eu penso em Madame Bovary, Ana Karenina, Senhora... e estou fazendo esforço aqui. Mas me pede pra citar clássicos com homens como personagens principais que eu levo horas pra PARAR de lembrar!&lt;/span&gt;&lt;br style="line-height: 18px;" /&gt;&lt;br style="line-height: 18px;" /&gt;&lt;span style="line-height: 18px;"&gt;Tudo que é feminino é visto como inferior na nossa sociedade (xingamos homens dizendo que são femininos; quando alguém corre de maneira estranha, dizemos que corre feito mulherzinha; quando alguém é fraco, diz-se que é uma menininha; quando alguém demonstra muitas emoções, diz-se que chorou feito uma mocinha; qualidades femininas são sinônimo de inferioridade, porque são quase sempre fragilidade, delicadeza, submissão; mesmo nas áreas que teoricamente mulheres deveriam dominar - não tem uns psicólogos evolucionistas que insistem que devemos ficar em casa cuidando do fogão e dos filhos porque assim fomos desenhadas? -, homens são mais respeitados - pense em quantas designers são mais adoradas que homens da mesma profissão, e em quantas chefs de cozinha famosas você conhece. Dica: a Nigella não conta!). A literatura apenas não foge à regra.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4300412046816509924-8637483466031096876?l=feminerds.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://feminerds.blogspot.com/feeds/8637483466031096876/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://feminerds.blogspot.com/2011/12/me-perguntaram-por-que-penso-que.html#comment-form' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4300412046816509924/posts/default/8637483466031096876'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4300412046816509924/posts/default/8637483466031096876'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://feminerds.blogspot.com/2011/12/me-perguntaram-por-que-penso-que.html' title='Me perguntaram por que penso que literatura feminina é tratada como inferior.'/><author><name>Julia</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-oJ0J3NJCrNU/TZTrBO6w_1I/AAAAAAAAAc0/GSwnfU89K5Y/s220/caradeporquinho.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4300412046816509924.post-8716550350104098930</id><published>2011-11-17T13:58:00.000-02:00</published><updated>2011-11-17T13:58:32.957-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='gênero'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='lgbt+'/><title type='text'>Autocrítica ou Quando o ativismo LGBT/feminista fica light</title><content type='html'>Ontem eu estava numa comunidade do Facebook destinada a discussões de gênero e alguma pessoa postou sobre o &lt;a href="http://kyshoujo.livreforum.com/t122-buck-angel-conhece"&gt;Buck Angel&lt;/a&gt;. Há coisas que acho interessantes no discurso do Buck e outras que acho questionáveis; não o acho um bom, vamos assim dizer, líder transgênero. Mas, de qualquer maneira, ele traz visibilidade ao T de LGBT, especialmente aos transgêneros female-to-male, ignorados e até desconhecidos pela larga porção da sociedade. Nessa comunidade do Facebook uma pessoa comentou, com toda a intenção de elogiar, "Que foda ele/ela". Eu e outra dissemos, super educada e simpaticamente, que se referir a um cara que deixa bem claro ser um cara como "ele/ela" é uma das coisas mais ofensivas que você pode fazer. Juro que o tom foi simpático; a moça se ofendeu mesmo assim, mas nem foi isso que me incomodou.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;i&gt;O que me incomodou é que eu fui simpática.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o comentário fosse sobre um gay e alguém tivesse dito alguma coisa sobre gays quererem ser mulheres, eu teria sido bem mais assertiva. Grosseira, não, porque acho que não leva a nada, mas sem dúvida não teria sido doce e sim curta e grossa: homens gays não "querem virar mulheres", homens gays simplesmente são homens que gostam de homens, sexualidade não é gênero. No caso do Facebook, eu cheguei a dizer "bem, peço desculpas se te ofendeu o meu modo de corrigir, mas é importante ressaltar que isso pode ferir transgêneros". Fiquei pensando depois: eu teria pedido desculpas no exemplo acima, em que alguém hipoteticamente confundiria gênero com sexualidade? Duvido. Se essa cena ocorresse num espaço feminista, alguém se ofenderia com uma correção enérgica? Duvido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O ativismo LGBT e a causa feminista são extremamente condescendentes com transfobia. Eu não acho que a autora do comentário original seja transfóbica no sentido estrito da palavra; se fosse, não estaria manifestando apreciação pelo Buck. Mas, ainda que talvez ela não soubesse, desconsiderar o gênero de uma pessoa transgênero é uma marca de transfobia. E não saiu da minha cabeça outras tantas comparações. E se fosse um comentário racista com intenção de não ser racista? Oras, todos teriam ficado ofendidos. E se fosse um comentário antifeminista feito na melhor das intenções, como o clássico "não sou feminista nem machista, sou pela igualdade"? A comunidade inteira teria ido corrigir a impressão errada sobre feminismo. Mas um comentário ignorante sobre transgêneros é relevado. É carimbado com um "mas a moça teve boa intenção", comportamento que, sabemos bem, não seria reproduzido fosse a ofensa dirigida a outro grupo marginalizado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante a discussão, outra mulher veio dizer que achou que quem repreendeu (vamos assim colocar) a moça do comentário original foi de boa - inclusive, &lt;i&gt;de boa demais&lt;/i&gt;. E isso ficou na minha cabeça. É verdade. Qualquer outro assunto naquela comunidade, ou em qualquer comunidade feminista, teria gerado mais debate, mais ativismo, mais luta. Quando falaram em transfobia, todo mundo saiu assobiando, &lt;i&gt;inclusive eu&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em outra comunidade feminista, do finado orkut, uma vez uma feminista se referiu a transgêneros como "esquizofrênicos", dizendo que, e aqui cito tão &lt;i&gt;sic&lt;/i&gt;&amp;nbsp;quanto posso lembrar, "se você é mulher e pede pra ser chamada de homem, me desculpe, isso é esquizofrenia". Não fui tão gentil quando discuti com ela daquela vez, mas observei diversos membros da comunidade fingindo que não tinham lido aquilo, pois se tratava de uma membra antiga e respeitada. Ainda assim, se fosse a própria dona da comunidade fazendo um comentário homofóbico, ninguém teria tido dó algum da ignorância; mas, como era alguém conhecido falando mal de transgêneros, ninguém se preocupou muito. Ninguém parou pra pensar que havia transgêneros naquela comunidade que não precisavam ler uma ofensa dessas e, pior ainda, ver a ofensa passar incólume, ver que quase ninguém se importou e, pior ainda, algumas pessoas ainda defenderam a feminista que se referia a transgêneros como esquizofrênicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Claro, o caso do Facebook foi bem diferente. A moça não sabia que ia ofender, não fez de propósito. Mas muito mais energia foi gasta na reafirmação da inocência da comentarista do que em falar de transfobia, do que falar no perigo que é você se referir a uma pessoa trans no gênero errado, em como isso é doloroso e cruel, independente da sua intenção. Esse assunto ficou deixado de lado; ficou mais importante deixar imaculada a honra da comentarista, dizer que ela era uma boa pessoa, e acho que muita gente que chegar e ler o debate pode ficar sem entender o que há assim de tão errado naquele "ele/ela", pois não deixaram ninguém falar nisso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Eu sei que &lt;i&gt;eu&lt;/i&gt;, se tivesse lido comentário similar com fundo racista, homofóbico ou bifóbico, não teria tentado ser querida. E tenho certeza de que pouca gente teria se preocupado tanto assim se a outra pessoa sairia mal da discussão. O ponto não era, em momento algum, atacar pessoalmente a moça do comentário original, transformá-la em transfóbica, trazer à tona algum fundo cissexista. O ponto era registrar por que não se fala "ele/ela" a menos que a pessoa tenha pedido para ser chamada assim. O ponto era registrar que gênero, sim, é importante, especialmente para quem não teve seu gênero respeitado e afirmado desde o nascimento. O ponto era uma discussão urgente e importante, que, como sempre, acabou sendo deixada de lado para discutir coisas aparentemente mais relevantes, como que você não deve corrigir os outros em público quando eles tiveram uma boa intenção.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4300412046816509924-8716550350104098930?l=feminerds.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://feminerds.blogspot.com/feeds/8716550350104098930/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://feminerds.blogspot.com/2011/11/autocritica-ou-quando-o-ativismo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4300412046816509924/posts/default/8716550350104098930'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4300412046816509924/posts/default/8716550350104098930'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://feminerds.blogspot.com/2011/11/autocritica-ou-quando-o-ativismo.html' title='Autocrítica ou Quando o ativismo LGBT/feminista fica light'/><author><name>Julia</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-oJ0J3NJCrNU/TZTrBO6w_1I/AAAAAAAAAc0/GSwnfU89K5Y/s220/caradeporquinho.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4300412046816509924.post-7717641029876650675</id><published>2011-07-31T02:42:00.000-03:00</published><updated>2011-07-31T02:42:44.920-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='gênero'/><title type='text'>Música, teatro e o pavor de ser confundido.</title><content type='html'>Uma das primeiras coisas que checo numa banda ou artista novos são os covers que fizeram - principalmente se for de uma música que adoro. Achei por acaso esse &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=2Rmil_raUtU"&gt;cover de Just Like Heaven&lt;/a&gt;, minha música preferida do The Cure. Não gostei do cover, mas ele me deixou pensativa. Me pareceu odioso que, em certo momento da música, a cantora começasse a mudar todos os pronomes pro masculino. Fiquei pensando, &lt;i&gt;caralho, por que fazer isso?&lt;/i&gt;&amp;nbsp;Essa música é clássica, escrita pelo Robert Smith em homenagem à esposa, noiva na época, uma declaração de amor. E eu sempre interpretei como sendo também uma referência a Annabel Lee, poema do Edgar Allan Poe, especialmente pela parte de "o mar que levou a única garota que amei". Enfim. Já não tinha gostado da música, e aí essa mudança nos pronomes começou a me incomodar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É uma tendência relativamente comum, reparei mais tarde; há um cover que uma banda de rapazes fez de Paparazzi, da Lady Gaga. Na frase "I won't stop until that boy is mine", o cantor mudou pra "girl". Vi isso em outros covers. A ideia de &lt;i&gt;parecer&lt;/i&gt;&amp;nbsp;gay é tão desagradável que mudam a letra da música, uma coisa tão inofensiva, e geralmente uma música que o mundo inteiro sabe que não é sua e sim de uma banda muito velha e famosa. Se a moça cantasse "that stole the only girl I loved, and drowned her deep inside of me" eu não ia pensar que ela é lésbica; aliás, acho que eu não ia pensar nada, a sexualidade dela jamais me passaria pela cabeça. Do jeito que está, no entanto, é meio difícil fugir da heterossexualidade explícita dela. Curioso, porque, provavelmente, nem lhe passou pela cabeça que o simples ato de trocar os pronomes tornaria patente sua orientação sexual. Não é, em si, um problema; a maioria das músicas de amor deixa explícita a orientação (quase sempre heterossexual) de quem escreveu a letra e não me incomoda a heterossexualidade - a não ser a compulsória. O caso é que aparentemente cantar para outra mulher incomodou a moça, assim como cantar para outro homem incomodou os guris da tal banda.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Isso me levou a pensar no sem-número de canções interpretadas por mulheres que foram escritas por homens, e que elas cantam sem mudar nenhum gênero de nenhuma palavra. Não as incomoda cantar na perspectiva de um homem. Há cantoras e cantores que não são heterossexuais e mesmo assim cantam, sem problemas, músicas escritas numa perspectiva heterossexual. O problema é que eu só lembro de uma música, que aliás é do Los Hermanos, em que um homem canta na perspectiva de uma mulher, e agora não me ocorre &lt;i&gt;nenhuma&lt;/i&gt; em que uma pessoa heterossexual cante na perspectiva de outra bi ou homossexual. Aí já é mais raro porque pode &lt;i&gt;suscitar dúvidas&lt;/i&gt;. Ser confundido &lt;i&gt;aí&lt;/i&gt; é um perigo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há mulheres que interpretam papéis masculinos, o que em si as pessoas acham muito esquisito - mas aceitam. Um homem que interprete uma mulher está provavelmente querendo fazer humor. Dificilmente um homem vai interpretar uma mulher a sério; em parte porque ninguém aceitaria. Mulheres, que têm uma minúscula aceitação para interpretarem homens em peças, já são imediatamente empurradas para papéis femininos, enquanto homens são empurrados imediatamente para papéis masculinos, e querer discutir isso, querer apontar qualquer coisa dentro desse assunto como questionável e debatível, é tomado como loucura. Por outro lado, no entanto, o outro problema de homens interpretarem mulheres é que aquilo vai recair sobre o ator como uma mácula sobre sua masculinidade. Deixa de ser arte. Uma mulher pode deixar de lado sua feminilidade (quando é que nossa feminilidade é &lt;i&gt;ferida&lt;/i&gt;?) sem que isso deixe de ser visto como uma expressão; mas para um homem é o "risco" de ser confundido com gay ou trans. É um ato de coragem arriscar perder o privilégio heteronormativo (ou seja, criar na cabeça das pessoas a dúvida acerca da sua sexualidade, porque elas tendem a entender todos como heterossexuais por padrão), enquanto para mulheres é apenas normal, no caso das músicas, ou no máximo excêntrico, no caso dos papéis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por falta de opção, muitas vezes já joguei um videogame como homem, e os heróis de quase todos os meus filmes favoritos são homens. Seguidamente me identifico com personagens masculinos. No entanto, não lembro de nenhum amigo meu falar que se identifica com as mulheres da história - mesmo quando, caso que aliás é raro, são bem escritas e desenvolvidas. Posso me identificar com os personagens masculinos porque o fato de eu vê-los e entendê-los como seres humanos me permite sentir empatia por eles e não me importar com essa pequena diferença de sermos de gêneros diferentes, porque estou treinada para ver além disso, no que diz respeito do sujeito, tanto quanto for possível.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Imagino como deve ser o exercício para um homem se identificar com personagens femininas, se ver no lugar delas, ler uma história e pensar "Caralho, essa mina sou eu" sem se importar com pequenas diferenças biológicas e/ou mentais. De modo geral, filmes e livros com personagens femininas não são pensados para causar empatia mesmo nas mulheres; ou devemos invejar o final maravilhoso ou devemos nos identificar com a desgraça da vida da personagem, jamais com sua personalidade; assim, criamos empatia pelos homens e nenhuma pelas mulheres, mesmo quando somos mulheres; nos identificamos com objetos ao seu redor, jamais com o sujeito. Isso torna ainda mais difícil para homens superarem a barreira de gênero e enxergarem &lt;i&gt;além dela&lt;/i&gt;&amp;nbsp;- exercício que entendo ser difícil e um desafio constante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Que um dia um homem hetero não se incomode de fazer cover de Always do Erasure, ou escreva uma música na perspectiva de um homem bissexual ou gay, ou cante uma música na perspectiva de uma mulher, sem se sentir ameaçado ou sem que as pessoas julguem como inaceitável.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4300412046816509924-7717641029876650675?l=feminerds.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://feminerds.blogspot.com/feeds/7717641029876650675/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://feminerds.blogspot.com/2011/07/musica-teatro-e-o-pavor-de-ser.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4300412046816509924/posts/default/7717641029876650675'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4300412046816509924/posts/default/7717641029876650675'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://feminerds.blogspot.com/2011/07/musica-teatro-e-o-pavor-de-ser.html' title='Música, teatro e o pavor de ser confundido.'/><author><name>Julia</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-oJ0J3NJCrNU/TZTrBO6w_1I/AAAAAAAAAc0/GSwnfU89K5Y/s220/caradeporquinho.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4300412046816509924.post-9186444259285790208</id><published>2011-06-10T21:54:00.000-03:00</published><updated>2011-06-10T21:54:43.227-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='classismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='racismo'/><title type='text'></title><content type='html'>Estou há uma semana trabalhando numa escola bilíngue num bairro rico da cidade — bem, naturalmente, porque os alunos precisam vir de famílias no mínimo de classe média alta para poder arcar com a mensalidade da escola. As crianças com quem trabalho são bem pequenas: a mais velha tem oito anos, e todas as outras têm seis, cinco, quatro ou até três. Paradoxalmente, acho que é por isso mesmo que elas fornecem as observações mais interessantes. Hoje, uma das tarefas era pintar um fazendeiro (elas estão aprendendo sobre animais de fazenda e a letra F). Não me surpreendeu que todas as crianças tivessem pintado o fazendeiro como um homem branco. Peguei uma das folhas e comecei a pintar com elas, só por pintar, e usei a cor marrom para a pele do fazendeiro. Eu imaginei que elas fossem estranhar, mas a reação das crianças foi muito além: um dos meninos disse "Teacher, &lt;i&gt;não pode&lt;/i&gt;, tem que ser com cor-de-pele!" e todas olharam como se eu tivesse feito algo muito obviamente errado, tipo desenhar uma pessoa com seis olhos na cara (se eu tivesse desenhado um vestido no fazendeiro a surpresa deles não seria maior). O próprio fato de as crianças serem ensinadas a chamar aquele tom de rosa bem clarinho de cor-de-pele é em si muito sugestivo: nenhuma delas chama amarelo-escuro ou marrom de cor-de-pele, muito embora sejam mesmo cores de peles. Não achei, no entanto, que isso seria algo que as crianças poderiam entender. Então, como quem explicasse algo óbvio, eu disse "Oras, o meu farmer é negro, black". Depois de um "aaah" geral, uma menina, muito pensativa, comentou: "É verdade, a minha babá tem a pele assim"; uma ou outra comentou a mesma coisa sobre alguma empregada. E o assunto mudou. A nenhuma delas ocorreu que a cozinheira e faxineira da escola também era negra. Isso deixou mais uma coisa clara pra mim: além de não conceber a idéia de trabalhar com um desenho de negros (ou gente que ao menos não é branca), as crianças também nunca tinham parado pra &lt;i&gt;olhar&lt;/i&gt; a pessoa que limpava a bagunça delas e lhes servia a comida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse post tá uma bosta porque eu ando sem idéias, só queria registrar o insight.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4300412046816509924-9186444259285790208?l=feminerds.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://feminerds.blogspot.com/feeds/9186444259285790208/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://feminerds.blogspot.com/2011/06/estou-ha-uma-semana-trabalhando-numa.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4300412046816509924/posts/default/9186444259285790208'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4300412046816509924/posts/default/9186444259285790208'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://feminerds.blogspot.com/2011/06/estou-ha-uma-semana-trabalhando-numa.html' title=''/><author><name>Julia</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-oJ0J3NJCrNU/TZTrBO6w_1I/AAAAAAAAAc0/GSwnfU89K5Y/s220/caradeporquinho.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4300412046816509924.post-7174060749581903011</id><published>2011-05-24T12:02:00.000-03:00</published><updated>2011-05-24T12:02:01.569-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='sexo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='sexualidade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='gênero'/><title type='text'>Homem vs Mulher</title><content type='html'>O clichê homens versus mulheres é provavelmente o mais antigo e, para mim, o mais irritante. Quase tudo na nossa sociedade é separado em dois gêneros e nossa percepção acerca deles é muito reduzida, limitada a alguns estereótipos simples que fomentam uma discussão nociva e quase sempre ignorante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, fala-se das diferenças entre homens e mulheres. Quase todas as citadas - mulheres são românticas e sensíveis, homens só querem sexo e são brutos etc - são baseadas em construções sociais, associações que montamos e sustentamos há centenas de anos. Torna-se imperativo defender o gênero a que você é associado: não, mulheres é que são traiçoeiras, não, homens é que são violentos. Isso não é problemático apenas por estarem se baseando em convenções (nessas discussões, ninguém jamais fala algo como "mulheres são melhores pois têm dois cromossomos X, mais resistentes" ou "homens são melhores porque tendem a ter mais massa muscular"); é também, e acho que principalmente, por estreitarem cada vez mais as normas e papéis de gênero, ferindo assim as pessoas que naturalmente não seguem suas obrigações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A garota que odeia saias e vestidos e nunca se arruma ganha um nome que a diferencia das outras mulheres; ela se torna uma sapatão e caminhoneira, não mais uma mulher, e tem sua apresentação (talvez até mesmo identidade) de gênero transformada em sexualidade. O garoto que gosta de moda e de literatura romântica perde seu lugar entre os homens; a exemplo da "sapatão", fica marginalizado entre os espectros. Nem é tão inferior, pois a feminilidade é inferior à masculinidade onde estamos inseridos (mais a seguir), que seja uma &lt;i&gt;mulherzinha&lt;/i&gt;, nem tão &lt;i&gt;bom&lt;/i&gt; para ter sua masculinidade inquestionada. A confusão entre gênero e orientação sexual é tamanha que, quando um homem é indagado acerca de sua sexualidade, diz-se que teve sua &lt;i&gt;virilidade&lt;/i&gt; posta em questão (no caso das mulheres, não me parece que se diga que sua feminilidade foi questionada ao perguntarem se é lésbica; provavelmente porque a sexualidade da mulher é sempre centralizada no homem, mesmo quando ela se envolve com outra mulher, de modo que sua feminilidade depende de cumprir outras normas).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse âmbito, onde qualquer coisa fora do esperado de um homem e de uma mulher os empurra para fora dos espectros, sem aceitá-los no oposto, é incentivada não apenas a transfobia como uma competição eterna e impossível de ser decidida entre homens e mulheres, aqui vítimas de uma divisão de gênero que de nada nos serve, nada nos traz, e apenas nos limita.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa divisão e conseqüente competição infrutífera também se manifesta em valorizarmos um gênero em detrimento do outro — isto é, &lt;u&gt;valorizarmos a masculinidade&lt;/u&gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse momento, sempre surge um homem afetado pra gritar que é um absurdo que digam isso, que homens sofrem tanto com o machismo quanto as mulheres. Mais sobre isso em outro post. Mas já adianto que é um comportamento triste e lamentável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O caso é que a masculinidade &lt;b&gt;É&lt;/b&gt; valorizada e a feminilidade, não. Ela é inferior. Pense, por exemplo, em como ofender um homem. Na maneira mais profunda de feri-lo. Você tem duas opções: dizer que tem algo de errado com o pênis dele (e portanto sua masculinidade e própria personalidade) ou chamá-lo de viadinho. Nas duas, o acordo tácito é que ser homem, ser machão, ser super masculino e super viril é melhor. Desconstruamos: associa-se o pênis à virilidade do homem. Não foram poucas vezes que ouvi coisas tipo "Honra isso que tu tem no meio das pernas". A minha favorita, no entanto, é quando um cara é chamado de gay e responde, com a mão entre as pernas (era uma fala muito popular durante meu ensino fundamental): "Vem aqui ver o viado!". Ou seja, se ele tinha &lt;i&gt;pênis&lt;/i&gt;, não podia ser viado. Essa parte não é uma crença minha, mas é a associação comum: se não tem pênis, é mulher. O que nos define primariamente não é homem biológico ser XY e mulher biológica ser XX, e sim que homem tem pau e mulher não tem (glândulas mamárias, útero e vagina, outros diferenciais geralmente bastante perceptíveis, aparentemente não fazem a mesma diferença). Isso nos leva à segunda opção; viado não é viril. Viado mal tem pau. Viado é um cara que quer ser mulher. &lt;b&gt;Como você ofende um homem?&lt;/b&gt; Insinuando que ele não é homem - portanto, de acordo com o raciocínio na sociedade baseada em dois gêneros, que é &lt;i&gt;mulher&lt;/i&gt;. Tem insulto maior que virar pra um cara e dizer que ele está agindo feito uma mulherzinha? Tem gente que morre por menos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(E como você ofende uma mulher lá no âmago? Diga que ela é feia. Que é burra. Que ninguém quer comer ela. Que é mal-vestida. Que é puta. Que dá pra todo mundo. Enfim, a lista é extensa.)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Desse modo, definimos tudo que é feminino como mais delicado, mais fofo, mais meigo; e portanto menos valorizado. Podem ser coisas boas lá para as mulheres - lá longe, naquele mundo delas que ninguém entende. Esse próprio conceito é demeritório. Já selvageria e violência, associadas à masculinidade, são aclamadas, mesmo encorajadas. Desnecessário dizer que, assim como criminalizar a delicadeza é uma atitude ignorante, reduzir homens a um traço que não apenas nem todos têm, como é &lt;i&gt;ensinado&lt;/i&gt;, também é ignorância.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4300412046816509924-7174060749581903011?l=feminerds.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://feminerds.blogspot.com/feeds/7174060749581903011/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://feminerds.blogspot.com/2011/05/homem-vs-mulher.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4300412046816509924/posts/default/7174060749581903011'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4300412046816509924/posts/default/7174060749581903011'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://feminerds.blogspot.com/2011/05/homem-vs-mulher.html' title='Homem vs Mulher'/><author><name>Julia</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-oJ0J3NJCrNU/TZTrBO6w_1I/AAAAAAAAAc0/GSwnfU89K5Y/s220/caradeporquinho.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4300412046816509924.post-8933977832144133410</id><published>2011-05-13T14:05:00.003-03:00</published><updated>2011-05-13T14:05:44.679-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='sexualidade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='lgbt+'/><title type='text'>Apoio às vítimas de heterofobia</title><content type='html'>&lt;br /&gt;
&lt;div class="western" style="line-height: 140%; orphans: 2; widows: 2;"&gt;
&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Tendo
em vista os terríveis acontecimentos recentes, em que gays tentam
criar uma ditadura, uma&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;i&gt;mordaça gay&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;,
para me apropriar do termo genialmente cunhado por um comentarista do
YouTube (onde as maiores mentes analíticas se formam diariamente),
decidi dar um passo a frente e promover uma espécie de centro de
apoio às vítimas da mais nova e devastadora calamidade que assola
nosso país: a heterofobia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abaixo, listo todos os problemas
que os heterossexuais passam diariamente e, como membro da sopa de
letrinhas LGBT+, me prontifico a aconselhar e pedir desculpas em nome
dos outros bárbaros que tornam as vidas dos heterossexuais ainda
mais difícil do que ela é — porque aparentemente é possível, e
não posso me desculpar o suficiente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São alguns deles,
apenas alguns, pois nunca serei capaz de listar todos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Temer
contar aos colegas de trabalho e/ou escola e faculdade a respeito de
sua heterossexualidade. Você nunca sabe quando será espancado ou
sofrerá violência verbal, sem contar o iminente risco de
demissão.&lt;br /&gt;- Há inúmeros cultos que repetem diariamente que a
sua orientação sexual, além de ser uma escolha (que você nunca
fez!), é uma aberração terrível, de modo a abalar a sua
auto-estima — já severamente comprometida por essa sociedade
heterofóbica.&lt;br /&gt;- As estatísticas mostram que jovens
heterossexuais têm 7 vezes mais chances de cometer suicídio que os
homossexuais, dado à aceitação pronta que homossexuais têm de
seus familiares, colegas e amigos, enquanto os heterossexuais estão
sempre temendo retaliação.&lt;br /&gt;- Você não pode andar de mãos
dadas com o parceiro do sexo oposto, por medo e talvez até mesmo
experiência de ter sofrido espancamento, perseguição e ameaças de
estupro.&lt;br /&gt;- Sempre presumem que você namora alguém do mesmo sexo,
graças à homonormatividade de nossa sociedade, onde o normal e
aceitável é sempre ser homossexual — e, se você é hetero, é
visto como estranho, como desviando da norma.&lt;br /&gt;- Outra crença
comum entre os brasileiros é de que a heterossexualidade não
existe, que é apenas para chamar a atenção, enquanto os
privilegiados homossexuais têm a validade de sua orientação
automática.&lt;br /&gt;- Enquanto heterossexuais tiveram de acompanhar,
temerosos, a votação do Supremo Tribunal Federal para ver se é
criado o precedente que valide a união estável heterossexual, os
homossexuais podem se casar e ter direitos sem qualquer problema.&lt;br /&gt;-
A sua orientação sexual é usada como insulto. Enquanto "gay"
só é considerado ofensa de brincadeira em grupos militantes
heterossexuais, "hetero" é usado como sinônimo de idiota
ou brega em toda a sociedade, e ainda por cima em muitos idiomas.
Quantas crianças não crescem ouvindo de seus colegas que são
"heteros nojentas"? Quantas mais vamos perder para o
bullying aos heterossexuais?&lt;br /&gt;- Seus pais ou mães provavelmente
ficaram sem falar com você durante semanas depois que você saiu do
armário como heterossexual. Ou esse medo que o impede de sair.&lt;br /&gt;-
Quando um heterossexual finalmente perde a paciência e decide
processar quem o ofende e oprime sistematicamente, é visto como um
"fresco" que não consegue nem "aceitar uma
brincadeirinha".&lt;br /&gt;- Você provavelmente já perdeu amigos
heterossexuais para as drogas, depressão ou até mesmo suicídio,
por causa da sociedade heterofóbica em que estão inseridos,
enquanto homossexuais sempre sofrem por motivos diversos, nunca por
sua orientação sexual.&lt;br /&gt;- Em filmes e livros, heterossexuais são
sempre estereótipos, como se não fossem seres humanos reais e não
merecessem tal tratamento. Personagens homossexuais são sempre mais
complexos, porque são a norma.&lt;br /&gt;- Nenhum homossexual precisa dizer
que é homossexual, pois essa é a orientação presumida. Você, no
entanto, precisa sair do armário diariamente.&lt;br /&gt;- Há inúmeras
piadas em que a única graça, a "punchline", é alguém
ser heterossexual, como se a sua capacidade de amar pessoas do sexo
oposto fosse alguma espécie de brincadeira, de anedota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se
você ficou pensando "Mas eu não sofri quase nada do que está
acima, aliás, nada!", é porque o conceito de heterofobia é,
sem dúvida, a coisa mais&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;b&gt;abissalmente
ridícula&amp;nbsp;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;já dita por um ser humano,
uma maneira baixa e degradante de tentar atrair as atenções para si
mesmo sem ter problemas de verdade, enquanto a sociedade
repetidamente caga na cabeça de todo mundo que é LGBT, no armário
ou não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Heterofobia porra nenhuma. Exigir respeito —
ninguém precisa da&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;i&gt;sua&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;aceitação
— é nossa obrigação. Dá-lo é a sua.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="western" style="line-height: 140%; orphans: 2; widows: 2;"&gt;
&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="western" style="line-height: 140%; orphans: 2; widows: 2;"&gt;
&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;i&gt;por algum motivo, o blogger fica deletando o post. Vai ver ele é heterossexual.&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4300412046816509924-8933977832144133410?l=feminerds.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://feminerds.blogspot.com/feeds/8933977832144133410/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://feminerds.blogspot.com/2011/05/apoio-as-vitimas-de-heterofobia.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4300412046816509924/posts/default/8933977832144133410'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4300412046816509924/posts/default/8933977832144133410'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://feminerds.blogspot.com/2011/05/apoio-as-vitimas-de-heterofobia.html' title='Apoio às vítimas de heterofobia'/><author><name>Julia</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-oJ0J3NJCrNU/TZTrBO6w_1I/AAAAAAAAAc0/GSwnfU89K5Y/s220/caradeporquinho.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4300412046816509924.post-3009547986111360336</id><published>2011-05-10T04:30:00.051-03:00</published><updated>2011-05-10T04:58:04.823-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='sexo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='estupro'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='politicamente correto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='piadas'/><title type='text'>A graça de um estupro</title><content type='html'>Eu não questiono o que &lt;i&gt;é engraçado ou não é&lt;/i&gt;. Nem sei quão relevante ou produtivo é iniciar a discussão de até que ponto o humor deve ir, até onde é censura. Primeiramente, porque a discussão tende a ser ao mesmo tempo pautada e rechaçada pelas mesmas pessoas: as interessadas no humor ofensivo, que acham que rejeitá-lo é censurá-lo. Em segundo lugar, porque essa discussão já era antiga quando o avô do Rafinha Bastos fazia piada sobre estupro — porque, a não ser que fosse ele um senhor de grande caráter e bom-senso, não tenho dúvida de que já fazia os outros homens rirem muito de anedotas sobre mulheres sendo estupradas. O debate não chega a lugar nenhum enquanto se mantém no espectro do que é censura e o que é bom-senso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que acho é que é um humor falho por definição, e portanto defendê-lo vai se provando aos poucos contraproducente por si só. Digo que é um humor falho porque, antes de tudo, não é novo. Pontuar as suas piadas com um comentário sobre como aquele menino é um viadinho é coisa que a gente aprende antes mesmo de conseguir se equilibrar sobre duas pernas e dizer o nome da mãe. Havia, talvez ainda haja, não sei, um quadro no Zorra Total em que um pai tentava convencer o filho homossexual a ser "mais macho" e sempre soltava o bordão "Onde foi que eu errei?" quando o filho fazia alguma &lt;i&gt;viadagem&lt;/i&gt;. Veja, se isso foi um quadro do Zorra Total dez anos atrás, não consigo pensar em melhor indício de como é uma piada ultrapassada que já perdeu a graça antes mesmo de tê-la. Também se trata de um humor falho porque ele afasta público em potencial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
De início, é fácil entender o pensamento por trás de quem fica famosinho por tirar sarro de todo mundo: a idéia é que todo mundo também quer tirar sarro dessas pessoas, mas não tem coragem; por isso a própria profissão de comediante é vista como transgressora (se é ou não, não cabe aqui nos estendermos). Acredito também que quase nenhum comediante, especialmente se branco, heterossexual e homem — características que tendem a ser, sempre, beneficiadas de um jeito ou de outro na nossa sociedade —, pense que precisará da aprovação do alvo de suas piadas. O Rafinha Bastos, não tenho dúvidas, está bem ciente de que tem muitas admiradoras mulheres. Mas tenho certeza absoluta de que não faz idéia da quantidade de fãs seus que passaram por abuso sexual. Talvez nunca lhe tenha passado pela cabeça.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vê-se logo que isso nunca aconteceu a ele, que é uma realidade muito distante, pela própria essência do comentário. Ele usa estupro e sexo como sinônimos e diz que ambos, por serem em si a mesma coisa, são um prêmio de consolação a uma mulher feia — que de outra maneira não conseguiria o fabuloso feito de trepar. Ninguém que tenha uma noção minúscula do que é abuso sexual poderia tecer esse raciocínio; penso que inclusive vítimas possam pensar dessa maneira, desde que rejeitem a idéia de o que lhes aconteceu foi uma violência. Ao Rafinha Bastos muito provavelmente jamais ocorreu que tem fãs que foram estupradas ou estuprados. Ao Rafinha Bastos muito provavelmente estupro nada mais é do que uma palavra que as "feminazis" usam para chamar atenção e para combinar com suas axilas peludas. Nada mais natural que não faça idéia do perigo de dizer que um estuprador de uma mulher feia merece um abraço e um "Valeu, champs!".&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa é a principal falha do humor baseado em ofender; muitas vezes ele sequer percebe que ofende, e acha que é tudo apenas&amp;nbsp;&lt;i&gt;engraçado&lt;/i&gt;; mas, coincidência das coincidências, sempre essas coisas tão engraçadas afetam tão somente a minorias bem específicas. Minorias essas que se vêem com duas opções: rejeitar o humor ou aceitá-lo, mesmo que não goste, para talvez enfraquecê-lo. Lembra quando, na escola, alguém te dava um apelido irritante que você odiava com todas as forças, mas fingia gostar para que o apelido não pegasse? Eu penso em quantas vezes já ri de piadas machistas e vejo que o sentimento é muito parecido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro problema de reduzir essa discussão toda acerca do humor ofensivo a ser censurável ou não é que, com isso, se valida a idéia de que humor só pode ser engraçado se tiver humilhação no meio. Penso que isso é um pensamento preguiçoso, tanto do humorista sem talento ou vontade de pensar em coisas novas quanto de quem defende essa piada como o único tipo existente. Nós rimos diariamente de centenas de coisas que não são análogas às Cassetadas do Faustão: rimos de coisas sarcásticas, de humor besta, de situações cotidianas, até de vídeos em que gatos tocam uma música no teclado (aliás, de acordo com a internet gatos são a maior fonte mundial de risadas). E, mesmo assim, não se quer abrir mão de aliar isso a rir de uma mulher sendo estuprada. Não se quer abrir mão de, inclusive, apontar para uma mulher chocada na platéia, que talvez também tenha sido estuprada e não tenha nenhuma vontade de abraçar seu agressor, e usá-la como sinal de que o comediante é &lt;i&gt;transgressor&lt;/i&gt;, inovador, talentoso. Não falo em censura. Não falo sequer em bom-senso. Falo em pensar um pouco: por que defender tão vigorosamente uma piada antiga, cruel, que não apenas desrespeita vítimas de um crime hediondo como as manda ficarem ainda mais caladas do que já são (me pergunto o que um homem vítima de estupro que tenha lido a &lt;a href="http://www.rollingstone.com.br/edicoes/56/textos/a-graca-de-um-herege/"&gt;matéria da Rolling Stone&lt;/a&gt; se sinta), quando podemos buscar algo novo que não piore uma situação já suficientemente ruim para tantas pessoas?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4300412046816509924-3009547986111360336?l=feminerds.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://feminerds.blogspot.com/feeds/3009547986111360336/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://feminerds.blogspot.com/2011/05/do-humor-ofensivo.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4300412046816509924/posts/default/3009547986111360336'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4300412046816509924/posts/default/3009547986111360336'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://feminerds.blogspot.com/2011/05/do-humor-ofensivo.html' title='A graça de um estupro'/><author><name>Julia</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/-oJ0J3NJCrNU/TZTrBO6w_1I/AAAAAAAAAc0/GSwnfU89K5Y/s220/caradeporquinho.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry></feed>
